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terça-feira, outubro 26, 2021

Ironman Cascais

TÁ FEITO C@R@...caraças...este foi duro, foi muito duro, não me costumo lembrar das coisas más, mas não tenho ideia de ter sofrido tanto no meu primeiro Ironman. Começando pelo início, só começar este Ironman foi uma vitória, 5 dias antes da prova fui violentamente atropelado por uma carrinha, a minha bicicleta ficou toda partida e eu facilmente podia-me ter aleijado gravemente, ou mesmo não estar cá para contar a história, no entanto escapei só com alguns arranhões e nódoas negras. Há quem tenha dito que era um sinal que eu não devia participar no Ironman, para mim era só uma oportunidade que se mantinha ainda poder participar no Ironman, estava limitado mas não impedido fisicamente de participar.

Nas noites anteriores dormi mal, alguma ansiedade, preocupação com as mazelas, preocupação com a bicicleta. Contudo e felizmente, na noite da prova até dormi bem, acordei com o despertador e pensei - Isto ainda é cedo para começar a trabalhar. - depois quando vi que eram 6 horas é que caí em mim, esta era a hora que tinha posto o despertador no dia do Ironman. Despachar-me, ir até o parque de transição e fazer os últimos ajustes, por a garrafa de água, a minha alimentação nos sacos de transição, reavaliar o ar nos pneus e dirigir-me para a praia. Cheguei relativamente cedo à praia por volta das 7h20m e ainda fui dentro de água para avaliar a temperatura e dar a sentir ao corpo o que me esperava na prova. Ouvir o hino de Portugal foi diferente de qualquer outra vez, normalmente ouvimos o hino porque alguém está prestes a competir ou a ser reconhecido em representação de Portugal, naquele caso o hino era para mim, e para todos os portugueses que iam participar na prova. Após o hino dirigi-me para a minha caixa de partida, decidi ficar na caixa em que o tempo expectável para a natação seria entre 1h10m e 1h20m. Troquei uns últimos dedos de conversa com o Mário e o Paulo e nisto é dada a partida para os atletas de elite, começando a tocar o Thunderstruck dos AC/DC. Esta música foi como uma injecção de energia, toda a gente parecia focadíssima, como gladiadores à espera que abrissem os portões para entrarem a correr e a gritar dentro da arena, nunca mais ouvirei esta música com os mesmos ouvidos, o sentimento será com certeza este daqui para a frente.


Lá fui avançando na fila do rolling start e quando chego lá à frente e os braços baixam para dar sinal para o meu arranque, sentia-me o tal gladiador a correr pela areia em direcção ao mar. Os primeiros metros até ao pontão da praia do Peixe foi só um nadar desenfreado para ganhar ali algum espaço e orientar-me devidamente. Nessa altura estava um pouco descaído para a esquerda mais perto de terra. Devido à maré estar um pouco vazia achei que seria boa ideia ir mais longe da costa devido às rochas que poderia apanhar mais à frente (conhecia bem o percurso porque tinha feito dezenas de vezes em treinos) e fui-me dirigindo mais para a direita, apanhando a grande coluna de triatletas. Em boa altura o fiz por dois motivos, o primeiro realmente houve muita gente a queixar-se de ter apanhado rochas e eu nem as vi, o segundo porque fui atrás de uns pés que mal mexiam o que fazia que tivesse uma natação tranquila a poupar energia atrás de outro triatleta.

Segui atrás daquele triatleta até à bóia que estava mais perto do pontão do Tamariz, por volta dos 1800m, depois achei que ele estava a calcular mal a trajectória para a bóia seguinte que estava a cerca de 300m, e que estava a abrir muito para fora. Decidi então ir por mim até essa bóia e tentar arranjar uns melhores pés para seguir até ao final. Foi nessa altura que cheguei também a metade do percurso, e estava com 35 minutos de prova, ou seja, estava com um tempo final de natação perto de 1h10m, que seria inclusivamente melhor do que fiz em Barcelona. Após a bóia de retorno era seguir a direito tendo como referência o forte de Cascais. Apanhei uns pés que até estavam a um ritmo aceitável, mas que faziam imensa espuma e turbulência e após uns minutos aproveitei a boleia de outro triatleta que passava por nós e que quase não batia os pés. Fui seguindo quase até o final da natação e só quando vi a plataforma de saída para aí a 100-200m é que então fiz um esforço individual para chegar mais rápido. Nesta altura ainda me estava a sentir tão bem que me lembro perfeitamente de pensar que se fosse preciso dava outra volta, nem frio nem cansaço. Acabei o segmento de natação com 1h13m22s, fazendo mais de 3900m, por isso estava muito contente com o meu tempo.

Fazer agora quase 1km a correr até ao parque de transição, e calmamente preparar o famigerado segmento de ciclismo, passar vaselina nos pés, calçar as meias verificando que não ficaram com rugas, sapatos, dorsal, capacete e comida. Era hora do meu calcanhar de Aquiles, ainda por cima ia fazer com a minha bicicleta velhinha da Decathlon, que me tinha custado 300€, menos que alguns travões de algumas bicicletas que estavam lá no parque.

Pouco depois de sair do parque de transições tento por os braços nos extensores, que tinha passado da outra bicicleta para esta, mas as barras do guiador são mais finas e os extensores não apertavam bem, por isso não tinham estabilidade nenhuma, desisti logo ali de os usar, acabaram por só ser peso extra para o segmento de ciclismo. A primeira parte no Guincho que era rolante fui sendo ultrapassado por diversos triatletas, só quando comecei a subir para a Malveira é que equilibrei a coisa e ia passando mais ou menos tantos quantos os que passavam por mim. A subida até à Peninha foi tranquila e a um ritmo quase idêntico ao que tinha feito em treino com a bicicleta de competição. Na descida da estrada da Peninha fui ainda ultrapassando alguns, aquela descida técnica e algo perigosa favoreceu-me porque a conheço bastante bem por a ter feito dezenas de vezes. Na descida seguinte até à Malveira aí já foi outra conversa, é uma descida fácil e com a minha bicicleta a esgotar a desmultiplicação por volta dos 50km/h, fui sendo ultrapassado. Ao entrar no autódromo vejo um triatleta que estava já a sair a estatelar-se mesmo à minha frente, era um lembrete para não arriscar porque qualquer queda ou avaria podia-me tirar da competição. E sim, esse foi um cuidado constante que eu tive em todo o segmento, aquela bicicleta não é muito fiável, por isso tudo o que era buraco, empedrado, ou alcatrão em pior estado tentava evitar ou passar com cuidado para não partir nada. Chegar a Cascais e virar em direcção a Algés, ainda tinha pouco mais de 60kms feitos. Pouco depois foi a primeira ocasião onde me senti pouco confortável, sentia algum vento de frente, e com aquela bicicleta não conseguia posição aerodinâmica ou rolar a uma velocidade aceitável, até Algés fui a debater-me contra o vento. Dar a volta em Algés e ficou mais fácil, aproveitei para aumentar o ritmo e ao mesmo tempo sentir-me mais confortável, mesmo assim por volta dos 90kms o Paulo passou por mim e rapidamente deixei de o ver. Por volta dos 95kms comecei a sentir algumas dores de costas, ainda faltava tanto, por isso sabia que iria sofrer.

Chegando outra vez a Cascais e começar a segunda volta. No Guincho também já se sentia o vento de frente, não era muito forte mas o suficiente para me fazer claramente baixar o ritmo. Começando a subir para a Malveira senti um enorme calor, era mais ou menos 13h30m, o sol estava a pique, estava só com isotónico e não tinha água para pôr sobre a cabeça e sentia o cérebro a cozinhar por baixo do capacete. Como não me estava a sentir muito bem, antes de entrar na estrada da Serra fiz uma paragem estratégica para xixi, aproveitando para sair da bicicleta e tentar descansar durante uns segundos. quando chego a Cascais pensei que ia passar outro mau bocado com o vento em direcção a Algés, mas felizmente o vento tinha acalmado e a ida até Algés não foi tão penosa como a da primeira vez. O último retorno a Cascais já foi doloroso, as dores nas costas pioraram, o rabo já me doía e estava com uma dor estranha e incomodativa no meu pé direito. Foi gerir aqueles últimos quilómetros e pensar que era só chegar com a bicicleta que tinha praticamente a garantia que terminava o Ironman nem que fosse a andar.


Chego ao parque de transição e conforme ponho o pé direito no chão sinto uma dor aguda, não conseguia andar direito, só coxeava, não queria acreditar mas o meu pensamento de acabar nem que fosse a andar se calhar ia acontecer. Acabei o ciclismo com 6h57m08s, acredito que se tivesse feito com a minha bicicleta de competição teria feito 20-30 minutos a menos do que este tempo, mas o importante estava feito que era terminar. Penduro a bicicleta, calço os ténis de corrida e a dor alivia um bocado com o pé dentro dos ténis. Começo a correr ainda com dores, meio a coxear, mas a verdade é que passado 500m a dor tinha praticamente desaparecido e não me estava a impedir de correr. Os primeiros quilómetros de corrida até posso dizer que foram divertidos, estava a um bom ritmo, estava a passar imensa gente e não sentia qualquer tipo de dores significativas. Com 1 hora de corrida tinha feito 11kms e estava agora eu a ultrapassar o Paulo, que me tinha ultrapassado há horas atrás a meio da bicicleta. Nas idas para o Guincho estava a tentar abrigar-me do vento atrás de alguém, mas ao contrário de uma corrida normal onde corremos perto de pessoas com o mesmo ritmo, ali era difícil encontrar alguém com o mesmo ritmo, a maior parte era mais lenta que eu e às vezes passava alguém por mim muito mais rápido que eu não conseguia seguir, por isso ir abrigado era uma tarefa difícil.


Acabei a primeira meia maratona com 1h57m, não daria o tempo final que gostaria de fazer que era as 3h45m, mas não deixava de ser um tempo muito interessante. Contudo nessa altura já senti alguma fraqueza e percebi que não ia aguentar aquele ritmo durante muito mais tempo e que ia entrar em quebra, só não esperava era ter uma quebra tão acentuada como iria ter. Nessa altura fiz a segunda paragem estratégica para xixi, acho que até aguentaria até o final da corrida sem fazer, mas era mais para parar durante uns segundos e tentar recuperar. Quando dou a última volta em Cascais lá estavam os meus pais, como estiveram todo o dia durante o percurso, e disse que demoraria mais 1h20m-1h25m a fazer os 14kms que faltavam, mas que estava a sentir-me a quebrar. E a coisa iria piorar muito, por volta do quilómetro 30 sentia-me com o depósito totalmente vazio, fui obrigado a reduzir o ritmo porque não conseguia dar mais, por muito que bebesse e comesse parecia que não conseguia recuperar nada. Quando faltavam 6 quilómetros para o fim dei por mim numa situação que nunca tinha sentido, já tinha sentido pernas a falhar, a tremer, mas foi a primeira vez que senti a cabeça dormente, vontade de fechar os olhos e simplesmente apagar. Andei durante 10-15 segundos acho eu, e disse para mim que tinha de voltar a correr nem que fosse devagar, mas tinha de correr, e que iria andar nos postos de abastecimento dali até ao final. Não tenho muita memória destes últimos quilómetros, sei que andei nos postos de abastecimento e o resto foi descer devagar até Cascais. A memória que tenho é de olhar para o lado direito e ver o tapete vermelho com a meta ao fundo. Ainda parei para cumprimentar o Vasco que estava no público, eu acho que era o Vasco, mas nesta altura já não tenho a certeza. Cortei a meta totalmente arrasado mas com um sorriso nos lábios, ao fim de 12h54m14s, tendo demorado 4h31m55s a acabar a maratona. A minha queda facilmente se percebe quando olho para os últimos 14kms onde demorei a enormidade de 1h50m a fazer. A dureza deste percurso pode ser vista na enorme quantidade de desistências, não sei o número exacto mas a organização anunciou cerca de 2000 a começar e só acabaram 1410, é uma percentagem de desistências muito elevada. E no final lá estavam os meus pais outra vez, que me seguraram para me ajudar a andar. Além deles tinham acabado de chegar o Francisco e a Ana. Infelizmente o Francisco só chegou aquela hora, teria sido muito bom tê-lo visto durante a prova e teria sido uma força extra.




Tenho de dizer o muito obrigado a todos os amigos que me apoiaram, os que competem sabem o que vale aquele apoio, mas os que não competem acreditem que é valioso qualquer apoio vindo de fora. O muito obrigado aos meus pais que passaram o dia todo a apoiarem em todas as passagens que tinha em Cascais, e ainda me ajudaram a ir buscar a bicicleta e o equipamento no final da prova. 

Agora a parte mais negativa que não posso deixar passar. Se em Setúbal elogiei a organização, aqui irei fazer exactamente o contrário porque provavelmente estamos a falar do evento desportivo mais importante e que move mais dinheiro realizado em Portugal este ano. A marca Ironman™, quere-se uma marca de excelência, estamos a falar de uma prova pelo menos 3 vezes mais cara que qualquer outra prova com a mesma distância, por isso não esperava nada além da perfeição, que justificasse o preço que é pago. As minhas queixas vi-as replicadas por muitas pessoas, por isso é com algum fundamento que as faço e não é uma simples implicância minha. 

Começando pelo segmento de natação, a touca que nos deram mais parece uma touca descartável, de tão má qualidade que tinha medo de a romper ao colocá-la, ao contrário de todas as provas onde tenho participado que guardo as toucas e que as uso frequentemente com orgulho de ter acabado a prova, esta touca não a voltarei a utilizar. Depois o percurso, eu por acaso conhecia o percurso, mas estava mal sinalizado com poucas bóias de orientação e pior que isso, houve imensas pessoas a aleijarem-se em rochas porque a maré não estava cheia. 

No segmento de ciclismo vários problemas outra vez. Primeiro não forneceram um bidon inicial no kit, ou seja tivemos de levar nós um bidon nosso, para quando tivesse vazio deitar fora para receber...um novo bidon...não! Recebíamos garrafas de plástico vulgares que nem se aguentavam bem nos suportes da bicicleta, simplesmente ridículo. Já sei que se vão desculpar com o COVID, que era para não abrir as garrafas e por dentro de bidons, mas depois no segmento de corrida já puderam abrir as garrafas e por o líquido em copos de papel. Depois só havia 1 sabor de gel e 1 sabor de barras energéticas, ainda bem que eu gostei dos sabores, porque para quem não gostasse estava tramado. E as bananas, eram tão verdes que era impossível descascá-las em andamento e em segurança, inclusivamente houve uma que comecei a comer e de tão acre e aspera que era tive de a cuspir fora. Finalmente ter postos de abastecimento que só funcionam numa das voltas é só enganar-nos, bem sei que se vão escudar no regulamento, que por acaso li umas 3 vezes, mas acham que consigo decorar todos os quilómetros a que há abastecimento? O que aconteceu-me na primeira volta foi a chegar a Caxias em direcção a Lisboa tinha indicação de posto de abastecimento, deito fora a minha garrafa de água para receber uma cheia e quando vejo ainda estão a montar o posto de abastecimento que estaria aberto só na segunda volta, conclusão, tive uma série de quilómetros sem água.

Passando ao segmento de atletismo, o único alimento sólido eram bananas verdes mais uma vez. Ainda descobri uma mesa com uns míseros frutos secos, mas barras energéticas nem vê-las. E alimentação com sal para evitar cãibras? Também nem vê-la. E finalmente se querem ter bebida quente ponham chá, agora cola ou bebida energética quente é só horrível. Minimizar custos e aumentar lucros, é o que vejo. Por isto dificilmente voltarei a participar num evento da marca Ironman™, se quiser voltar a fazer a distância Ironman tenho outras opções muito mais baratas e com melhor qualidade.




segunda-feira, outubro 18, 2021

Novamente atropelado

Começo a pensar que ando com um manto invisível quando ando de bicicleta, mais uma vez o condutor não me viu, e neste caso não há desculpa nenhuma para não me ter visto. Saí de casa para o último treino de bicicleta antes do Ironman, uma coisa calma e tranquila julgava eu. Logo aqui ao pé de casa, deveria ter feito 500 metros, ao sair de uma rotunda fui abalroado por uma Ford Transit que estava a entrar na rotunda.

Segundo uma testemunha voei no ar durante cerca de 4 metros dando um mortal no ar, eu só me lembro de tentar evitar a carrinha e ela bater-me em cheio sobre o meu lado direito. Aterrei no passeio (triângulo de entrada da rotunda) sobre o meu lado esquerdo. Depois de ir ao hospital e de fazer um raio X, feliz-me só tenho algumas escoriações e arranhões, como caí "em seco" no chão e não fui de arrasto os arranhões nem estão assim tão feios.

O Ironman é já no próximo sábado, e não dá tempo para chorar em leite derramado, sim estou debilitado, sim estou desconfortável, mas os ciclistas profissionais depois de grandes quedas conseguem mesmo assim terminar as grandes voltas, por isso eu terei também de conseguir superar a dor extra. Pior ainda foi a bicicleta, que ficou totalmente partida, o quadro partiu em 3 sítios, quem a visse não dizia que eu fiquei tão inteiro. Então além de estar amachucado, terei também de fazer o Ironman com a minha antiga bicicleta, uma bicicleta da Decathlon de 300€, que já não ando com ela para aí há 2 anos e não tenho o corpo propriamente adaptado a ela, e já nem vou conseguir treinar com ela antes da prova. Terei de fazer o Ironman em hard mode, não há volta a dar, e se o conseguir completar (que vou conseguir) ainda me saberá melhor e darei mais valor.





terça-feira, outubro 05, 2021

Triatlo de Setúbal 2021

Mais de 2 anos depois voltei a participar num triatlo, e curiosamente, o último triatlo que tinha feito foi exactamente o triatlo de Setúbal de 2019. Este triatlo foi totalmente diferente para mim do triatlo de 2019, em 2019 fui só fazer o triatlo para me divertir, porque me disseram, e com razão, que era o melhor triatlo longo a ser realizado em Portugal, este ano o triatlo era um teste para aferir a minha forma na preparação para o Ironman de Cascais a ser realizado 3 semanas depois.

Este triatlo acabou por ter um sabor agridoce, mas vamos começar pelo início. Quando me desloquei para o parque de transição pela madrugada apanhei logo um banho de chuva, o tempo estava mau e rezava naquela altura para que o tempo melhorasse, mas de qualquer forma a estrada certamente estaria molhada para o segmento de bicicleta, o que o tornaria mais perigoso. Cerca de 15 minutos antes da partida, quando estava a fazer o aquecimento na praia, lá a chuva deu tréguas para não mais voltar. Começa o segmento de natação e estava-me a sentir muito à vontade, melhor do que pensaria estar, até à primeira boia amarela andei a saltitar de pés em pés porque sentia que conseguia ir mais rápido. Nos primeiros 500 metros demorei menos de 8m30s, ou havia corrente, ou estava a abusar no ritmo. Depois dessa boia estabilizei atrás de uns pés que me pareciam estar ao ritmo que devia de ir, confortável mas não demasiado devagar, mesmo assim fiz pouco mais de 9 minutos nos segundos 500 metros. Pouco antes de sair de água para contornar a boia que estava em terra levei uma trolitada na cabeça de uma mulher que me deixou meio tonto e me fez perder os pés que estava a seguir. Eu não gosto muito destas saídas da água a meio do segmento de natação, passar da posição vertical para a horizontal pareço sempre um bêbedo a sair de dentro de água. Dali até ao final do segmento era muito rápido, era manter a natação tranquila atrás de alguém. Antes de sair de dentro de água reduzi um bocadinho o ritmo para sair mais direito, depois ainda fiquei no engarrafamento das escadas que davam acesso ao parque de transição, mas de qualquer forma o tempo de 34m29s, a uma média de 1m50s/100metros, foi muito melhor do que estava à espera e muito melhor que o ritmo ao qual tenho estado a treinar, tendo saído na posição 172.

A primeira transição nunca é muito rápida, mas nada que envergonhe para quem não tem qualquer ambição ao nível da classificação geral. Quando pus os braços nos extensores, ainda em Setúbal e olhei para baixo reparei que tinha deixado os travões abertos, em andamento lá fechei os travões. Sou mesmo distraído, isto podia ter dado para o torto senão tivesse reparado naquela altura, pois quando tentasse travar numa descida, aí ia reparar que não estava a travar com efectividade. O início do percurso de ciclismo era praticamente plano seguido da primeira incursão à Serra da Arrábida. Na altura do primeiro retorno, pouco antes do Portinho da Arrábida, e já com a pior parte da montanha feita quando estávamos quase com 30kms feitos, levava cerca de 1 hora de prova, estava na posição 191, e sentia-me super entusiasmado, mesmo não indo a fundo porque não me queria desgastar demais a 3 semanas do Ironman, estava com uma média de quase 30km/h.

Mas como disse no início foi uma prova agridoce, estava tudo a correr bem, sensações óptimas, médias boas, contudo estamos sujeitos a uma série de problemas que nada ou pouco controlamos no segmento de ciclismo. Aos 32kms quando me pus de pé para ganhar ímpeto numa rampa curta mas dura a roda da frente escorrega-me estranhamente. Mais uma pedalada e volta a escorregar, tinha o pneu em baixo devido a um furo. Pedalei mais uma dezena de metros e parei no topo da rampa para trocar a câmara de ar. Mal eu paro para também atrás de mim o Francisco Osório também com um furo, e passado uns segundos mais outro ciclista que me pediu a bomba que estava com um furo lento e queria tentar chegar ao posto de assistência mecânica. Naquela altura estávamos ali 3 triatletas parados com furos. O tal rapaz encheu um bocado o pneu e seguiu caminho. Eu tirei o pneu da jante, tirei a câmara de ar, pus a nova câmara de ar, tudo isto relativamente rápido. Entretanto o Francisco estava com dificuldades a tirar o pneu da jante. Disse-lhe para me deixar tentar e dei-lhe a minha roda pedindo-lhe para me por o pneu da jante. Aquilo estava difícil, mas com a ajuda de um árbitro que chegou entretanto lá conseguimos desencaixar o pneu da jante. Normalmente sou muito crítico com os árbitros, acho que para triatletas de meio da tabela como eu se comportam de uma maneira intransigente, como se lutássemos pelo primeiro lugar, neste caso só posso dizer bem deste árbitro, foi incansável a tentar ajudar-nos e no final ainda foi ao ponto de assistência mecânica buscar câmaras de ar.

Bem, quando voltei a trocar de roda com o Francisco e ele devolveu-me a minha, começo a reparar que o pneu não estava bem encaixado  na jante na zona do pipo. Volto a desencaixar o pneu, ajusto a câmara de ar mas o pneu não encaixava na jante por nada, nunca tal me tinha acontecido... Começo a ver a minha vida a andar para trás, já estava à 10 minutos parado e ainda estava praticamente na estaca zero. Tinha de fazer algo rápido, se a câmara de ar nova não dava tinha de tentar reparar a antiga visto que tinha remendos rápido, era a minha única solução. Enquanto isto o Francisco já tinha posto uma câmara de ar nova, tinha enchido mas conforme enchia ela voltou a furar, provavelmente não limpou bem o pneu e o que furou a primeira câmara de ar furou também a segunda. Eu estava com o ouvido junto à minha câmara de ar a tentar descobrir o furo, quando o árbitro me disse - "Olha está ali uma poça da chuva, nem tudo é mau de ter chovido." - mal pus a câmara na água vi logo o furo, com a pressa nem verifiquei o resto da câmara de ar, podia ter corrido mal se tivesse mais de um furo. Lá reparei o furo e estava pronto para seguir caminho, o Francisco frustrado decidiu desistir e por isso eu ia seguir caminho. Ainda perguntei ao árbitro se valia a pena seguir, se ainda estava dentro do tempo de controlo, ao que ele me respondeu que ainda haviam alguns triatletas atrás de mim. Tinha com este problema perdido cerca de 27 minutos. Ao tentar arrancar ainda tive de voltar a parar, os meus sapatos tinham tanta lama de ter estado na berma que não encaixavam nos pedais, lá bati com os pés no chão e com alguma dificuldade lá encaixei os sapatos nos pedais.

Escusado será dizer que comecei de imediato as ultrapassagens, normalmente sou atleta de meio da tabela e neste momento estava a jogar na liga dos últimos, por isso era normal estar só a fazer ultrapassagens e não estar a ser ultrapassado. Até Setúbal ia constantemente a olhar para o pneu da frente a ver se continuava cheio, sempre com medo que não tivesse resolvido definitivamente o problema. Era uma motivação extra as ultrapassagens e aliado ao facto de ter o vento pelas costas fiz uma óptima média até o retorno na Mitrena. Nessa altura, e apesar das ultrapassagens que já tinha feito, ia na posição 383, tendo em consideração que só acabaram o triatlo 391 triatletas, não ia assim tanta gente atrás de mim que ainda tenha acabado o triatlo, estava praticamente em último. O trajecto entre a Mitrena e o centro de Setúbal foi aquele que senti que me esforcei mais do que queria, o vento estava contra, e tive me esforçar mais para o ritmo não cair em demasia. No segundo retorno no Portinho da Arrábida já ia na posição 366, pouco a pouco ia recuperando lugares. Ainda antes de acabar o segmento de ciclismo apanhei a Teresa Sepúlveda, parei um pouco ao lado dela para lhe dar uma força já que estávamos quase a chegar a Setúbal, mas acabei por seguir antes que algum árbitro visse e recebêssemos alguma penalização por excesso de zelo dos árbitros. Acabei o segmento de ciclismo na posição 355, certamente ultrapassei mais de 35 triatletas depois do furo, com o tempo de 3h40h28s, teria tido um bom tempo final se descontarmos os 27 minutos que tive parado.

A segunda transição neste triatlo é supersónica, visto não termos de arrumar a bicicleta, só sendo necessário entregá-la a alguém da organização. Saí bastante "soltinho" para a corrida, sentia-me muito bem e vendo em retrospectiva até andei rápido demais, não devia ter puxado tanto nos primeiros quilómetros, mas deixei-me levar pelo entusiasmo. Até aos 8 quilómetros, que foi até à altura onde me senti melhor, já ia na posição 337, com uma média de 4m39s/km. A minha ideia era fazer uma média de 5min/km, para não ficar muito amassado. Os 8 quilómetros seguintes já fiz a um ritmo confortável, a um ritmo que considero aguentar durante bastantes quilómetros se for necessário, os tais 5min/km. Por volta dessa altura já ia na posição 316, eu não sabia, mas apesar de ter diminuído o ritmo continuava a recuperar bastantes posições. Mais ou menos por volta dessa altura comecei a sentir um desconforto no joelho esquerdo, diminuí a largura da passada e aumentei a cadência, ou pelo menos tentei, de forma a diminuir o impacto da passada e a carga no joelho. O desconforto foi passando, contudo não voltei a aumentar o ritmo tirando já mesmo perto do final. Acabei o segmento de atletismo com 1h42m18s, com um tempo total final de 6h01m18s, na posição 295 da geral. Senão tivesse tido aquele problema na bicicleta teria acabado muito perto das 5h30m, o que seria um óptimo tempo para mim neste triatlo.


Fazendo agora uma retrospectiva da prova, foi um bom teste para o Ironman, consegui nos 3 segmentos fazer melhores médias e ter melhores sensações do que esperava. Uma palavra para a organização, este sem dúvida é o melhor triatlo longo organizado em Portugal, bons percursos, bons abastecimentos, bom apoio logístico, boa organização, pouca coisa considero que pode ser melhorada, e a um preço simpático comparando com organizações de nível idêntico. Será um triatlo que voltarei a fazer no futuro, nem que seja com pouco treino só para me divertir.


segunda-feira, outubro 19, 2020

Ironman Cascais 2020 - CANCELADO

Agora é oficial, depois dos rumores que começaram na 6ª feira passada, o Ironman de Cascais que se devia realizar no dia 7 de Novembro foi cancelado. Se o COVID permitir teremos Ironman em Cascais, e pela primeira vez em Portugal, em 23 de Outubro de 2021. Estou aborrecido, todo o esforço dos treinos desde Março seria agora posto à prova, sinto-me como nunca me senti, estava preparado e em forma, foi a primeira preparação que fiz que não tive problemas físicos ou qualquer tipo de impedimento durante toda a preparação. O confinamento trouxe novas rotinas, às quais me adaptei e até tirei proveito delas, consegui aproveitar o facto de não ter deslocações para o trabalho para ter mais tempo para treinar. Para o ano há que repetir a preparação, há que repetir o sacrifício, há que dedicar outra vez uma quantidade enorme de tempo a este projecto. Haja futebol com público que isso é que importa...

sexta-feira, abril 17, 2020

Novas rotinas de treino

Este período de quarentena obrigou-me a repensar o meu plano de treino com vista ao Ironman de Cascais, que por enquanto ainda acho que há uma boa hipótese de se realizar. O ponto mais negativo até agora e o que me tem impactado mais, é a falta de treino de natação, podia ir treinar ao mar, mas teria de sair durante o dia, aumentando a probabilidade de me cruzar com outras pessoas. Por isso há mais de uma mês que não vou para dentro de água. Contudo também não estou muito preocupado, como já disse várias vezes a diferença no segmento de natação, estando no meu melhor ou estando destreinado será 10 minutos, por isso numa prova como o Ironman é algo quase desprezável. O Ironman é uma prova maioritariamente de ciclismo, na qual temos de sobreviver para conseguir fazer uma corrida consistente no último segmento.

Quanto ao segmento de corrida e de bicicleta até tenho aumentado o meu tempo de treino, e no somatório da semana tenho mais horas de treino do que na minha rotina normal. Então o que mudou? Quanto ao segmento de corrida estou a correr à noite, depois das 22h. Sinto imensa falta de treinar ao sol, mas já me habituei ao frio nocturno, e já consegui ultrapassar aquela inércia mental de ter de correr depois de jantar. Há dias que me custa mais, mas no geral até já consigo que os treinos sejam produtivos. O meu maior impedimento nesta altura são as séries, o único local plano que tinha era o paredão de Cascais e agora está fechado, por isso as séries são feitas com alguma altimetria (sobra-me a ciclovia do Guincho e sempre com vento), e mesmo que seja pequena a influencia nos resultados, torna mais difícil perceber os dados obtidos após o treino.

O segmento de ciclismo tem sido feito nos rolos, e o que detesto os rolos, quem me conhece sabe que prefiro ir pedalar à chuva do que ficar confinado a fazer rolos. Os treinos têm sido bastante intensos, mas raramente ultrapassam as 2h de treino, e isso é um handicap para quem precisa de fazer 180km no Ironman, preciso de ter treinos de 4-6 horas, preciso de treinos grandes só a rolar. E como nunca gostei de fazer treinos de rolos também não tenho muita experiência a estratificar treinos, tento planear algumas séries de intensidade e de inclinação, mas tenho a noção das minhas limitações. Por enquanto é este o plano, melhores dias aguardam-se.

quarta-feira, novembro 02, 2016

O caminho para o Ironman

Passou exactamente 1 mês do Ironman de Barcelona, esta é uma boa altura para rebobinar e ver como cheguei a este ponto, qual foi o caminho para o Ironman. Este podia ser um daqueles típicos post "De sedentário a Ironman", contudo não é bem assim, não considero que alguma vez tenha sido sedentário, sempre fui uma pessoa minimamente activa. Bem vou começar pelas minhas raízes, pela minha origem, falando somente do meu percurso nas três modalidades que compõem o Ironman.

Quando tinha 4-5 anos a minha mãe pôs-me na natação e nos poucos meses que lá andei se calhar aproveita-se 1 mês, andava constantemente constipado e faltava imenso, acabei por nem aprender a nadar. Por volta dessa altura já andava de bicicleta lá pelo bairro, com a minha velhinha BMX de amortecedor central, a saltar rampas e a esfolar joelhos. Quando entrei para a preparatória do Monte Estoril, aos 10 anos, fiz a minha primeira corrida, e logo com um 1º lugar. Apesar de ao logo da minha juventude ter conseguido diversos pódios, esta foi a única vez que ganhei uma corrida.

Aos 12 anos voltei à natação, agora devido ao meu problema de asma o médico aconselhou a minha mãe a que eu praticasse natação. Com algum custo lá aprendi a nadar, durante 2 anos estive no tanque dos bombeiros dos Estoris, até que aos 14 anos passei para a piscina de 25 metros da Alapraia, piscina que ainda hoje frequento. A minha primeira memória da minha primeira bicicleta de mudanças remonta aos meus 16 anos, foi uma bicicleta que alguém me ofereceu por já ser velha, era uma bicicleta de montanha toda em ferro. Lembro-me da primeira volta que dei fora do bairro, "aventurei-me" na serra de Sintra com o Tiago Neto e o Alex, em que metade do tempo eles estiveram à minha espera porque eu fazia as subidas quase todas à mão...que vergonha.

Aos 18 anos entro na universidade, e a minha história é igual à da maioria, deixei de fazer qualquer tipo de exercício, excepto a natação por motivos médicos, senão provavelmente tinha-me tornado no sedentário. Quando aos 21 anos voltei a fazer uma corrida, a mini maratona de Portugal, na qual atravessei a ponte Vasco da Gama, e demorei mais de 48 minutos a fazer 8kms e senti-me mesmo mal, é que me apercebi que só a natação não chegava, apesar de já ser um nadador mediano isso não me servia de nada na corrida, e o bom corredor que era na minha juventude agora nem sombra dele existia. No final da universidade, quando já estava a entregar o projecto final, a 10 de Setembro de 2006 participei na primeira edição do Lisboa Bike Tour, neste evento era-nos dada uma bicicleta, apesar de ser um chaço não era tão chaço como a minha antiga bicicleta, então passou a ser a minha bicicleta principal. Com ela acabei por dar imensas voltas pela Serra de Sintra, e por estranho que pareça nem teve assim tantas avarias como seria de esperar, agora não me ajudava nada nas subidas, sempre fui dos piores nos grupos com quem ia andar e a bicicleta ainda ajudava mais a que fosse dos piores.

Entretanto passara-se alguns anos, continuei a treinar natação, uma ou outra corridinha ao final do dia, fazia algum ginásio (pouco), futebol, bicicleta BTT, e outros desportos ocasionalmente (polo aquático, hóquei aquático, etc). E a partir de 2010, já com 28 anos, é que posso dizer que efectivamente começou a minha caminhada para o Ironman, não é que na altura pensasse sequer em fazer um Ironman, estava muito longe disso mas o meu treino mais regrado começou a partir daí.

  • Setembro de 2011 - A primeira meia maratona
  • Janeiro de 2012 - Primeiro duatlo na companhia dos meus grandes amigos Nuno Silva e Pedro Santos. Nestes primeiros tempos muitas vezes meus companheiros de treino, aliás o Pedro começou também a fazer triatlo comigo.
  • Abril de 2012 - Primeira prova de BTT, a distância mais curta do maratona BTT Sintra
  • Junho de 2012 - Uma das coisas mais marcantes que fiz até hoje, o caminho de Santiago de Compostela a partir de Lisboa, de bicicleta e mais uma vez na companhia do meu camarada destas andanças o Pedro
  • Outubro de 2012 - Participação no Randonneurs, que até hoje é a minha distancia máxima feita num dia de bicicleta
  • Janeiro de 2013 - Tróia-Lagos a solo, na bicicleta de BTT com pneus de estrada, feito num só dia
  • Março de 2013 - O primeiro trail run
  • Abril de 2013 - Primeiro triatlo. Distância olímpica, nem tinha equipamento que me foi emprestado pelo Nuno Felício (fato de triatlo e fato isotérmico) e bicicleta emprestada pelo Zé Correia
  • Agosto de 2013 - Depois de ter comprado uma bicicleta de estrada em 2ª mão subi pela primeira vez à Torre a tentar seguir o Tiago Neto
  • Outubro de 2015 - Inscrição no Ironman de Barcelona 2016
  • Novembro de 2015 - Comprar a minha bicicleta de estrada a pensar no Ironman e em fazer triatlo mais regularmente. Obrigado ao Nuno Santos pela ajuda na escolha da bicicleta.
  • Dezembro de 2015 - Baixei de 1h30m na meia maratona
  • Dezembro de 2015 - Queda no Tróia-Sagres
  • Junho de 2016 - Óptimo teste no triatlo de Oeiras onde pulverizei o meu antigo record do triatlo sprint

Resumindo um pouco, 2010-2011 comecei a correr e a andar frequentemente de bicicleta BTT, 2012 introdução do duatlo, 2013 começar a fazer triatlo, bicicleta de estrada e a primeira maratona, 2014 primeiro half Ironman, 2015-2016 maturação e consistência, e finalmente a acabar 2016 fazer o Ironman. Comecei tarde mas ainda fui a tempo. Quanto ao próximo desafio ainda não sei, depois do Ironman parece que cheguei ao cume da minha montanha, vamos ver como será daqui para a frente.

quarta-feira, outubro 05, 2016

Ironman Barcelona - os dias anteriores

O tão desejado e ao mesmo tempo receado desafio estava aí à porta, era hora de rumar a Barcelona para o meu primeiro Ironman. Sentia-me bastante tranquilo, nada ansioso, sabia que tinha feito tudo o que estava ao meu alcance para estar o melhor preparado possível, queria que chegasse o dia da prova para desfrutar dela, e acreditava que se não tivesse nenhum azar, melhor ou pior conseguiria cortar a meta.

A viagem acho que foi o primeiro desafio, quase 1300 kms, quando o máximo que tinha feito num dia nunca tinha ultrapassado os 500 kms. Saímos de Cascais por volta das 5h30m de 5ª feira, graças à simpatia da câmara de Cascais que nos emprestou uma carrinha conseguimos ir todos juntos, todos nós virgens no Ironman, eu mais os meus colegas de equipa Mário Santos, Ricardo Costa, Nelson Moreira e Gonçalo Sousa. Chegámos a Calella (localidade perto de Barcelona onde decorre o Ironman) já perto das 22h30m locais, todos amassados de uma viagem super desgastante, foi só tirar tudo da carrinha, comer algo rápido e ir descansar. Durante estas longas horas com se pode calcular todas as conversas giraram à volta da prova, expectativas, receios, objectivos, etc, e claramente eu e o Nelson éramos os mais calmos.


Na 6ª feira começámos logo o dia por ir fazer o registo na prova, recolher as nossas coisas e despachar a parte mais burocrática. A magnitude da prova é uma coisa absolutamente impressionante, nada perto do que já tenha vivenciado, parecia que estava num campeonato do mundo ou nos jogos olímpicos, estamos a falar de quase 3000 triatletas, famílias inteiras a vir ver a prova, tendas por todo o lado, equipamento e mais equipamento, atletas a correr e a pedalar por todo o lado, via-se e respirava-se triatlo em cada canto daquela cidade. Esta grandiosidade só era comparável aos preços absolutamente absurdos do merchandising da prova, devem pensar que todos os países se regem pelos padrões da Suiça, mas o que é mais incrível é que aquilo vendia como se fossem garrafas de água no meio do deserto, por isso percebo que os preços sejam aqueles.

A seguir a isso pegámos na carrinha e fomos percorrer o percurso de ciclismo, queríamos ir ver a única subida do percurso que iria ser feita duas vezes. A subida em si não me assustou, tinha cerca de 7kms mas com inclinações a rondar os 3%-4% em que as rampas mais agressivas não ultrapassariam os 8%, bom para as minhas características. O início do percurso é que não me agradou muito, pensava que o percurso era todo plano tirando aquela subida, mas a saída de Calella era algo acidentada, a estrada ondulava com diversas pequenas subidas.

Ao final da tarde fomos correr um pouco para soltar as pernas depois de tantas horas sentados na carrinha no dia anterior, escolhemos mais ou menos a hora em que calculámos que no dia da prova estaríamos a correr. O percurso era muito bom, sempre plano e mais importante que isso, bastante abrigado do sol em grande parte da sua extensão. Entretanto também chegou o Felício que foi ajudar na organização do evento, para aprender um pouco sobre a dinâmica do mesmo, visto que vai ser uma das pessoas responsáveis pelo Ironman 70.3 de Cascais no ano que vem. O coitado estava cheio de vontade de fazer a prova que até dava pena, notava-se que ele trocaria num piscar de olhos a posição dele com a nossa.


Para além do Felício também chegou o David Sanglas, o nosso veterano do Ironman que vinha participar no seu 6º Ironman. Nessa noite tivemos a "Pasta Party", um jantar oferecido pela organização para todos os triatletas e como o nome indica, à base de massa, venham os hidratos que bem seriam precisos para domingo. Durante o jantar massacramos o David com perguntas, especialmente no que tocava às transições, pois nesta prova as transições não funcionam como em provas de triatlo normal, e a nossa inexperiência traziam-nos algumas questões quanto ao detalhe como as transições se procederiam. Basicamente em vez de termos um cesto com o equipamento ao lado da bicicleta, nesta prova temos uma tenda com um cabideiro enorme, em que cada triatleta tem uma posição na qual coloca dois sacos, um com as coisas para a transição da natação para a bicicleta, e outro para a transição da bicicleta para a corrida.


No sábado de manhã decidimos dividir-nos, eu e o Mário queríamos ir experimentar uma parte do percurso de ciclismo a pedalar, e os restantes queriam ir fazer uma natação rápida para experimentar a água, seguido de um ciclismo rápido. Para mim quem está habituado a nadar nas águas portuguesas nada em quase todas as águas, e então no Mediterrâneo esperava um mar calmíssimo, com água muito mais quente e muito mais salgada, por isso abdiquei de experimentar o segmento de natação, decidi que experimentaria no aquecimento no dia da prova. Enquanto estávamos a experimentar o percurso de ciclismo fiquei um pouco mais tranquilo, aquele ondulado inicial que parecia chato quando fizemos de carro, a pedalar, e aproveitando algum balanço que se conseguia parecia relativamente tranquilo. A única preocupação foi o vento frontal que se apanhava no retorno, mas segundo as previsões o vento ia ser quase inexistente no dia seguinte e sendo assim, tanto eu como o Mário achámos que era possível fazer uma média de 30km/h no ciclismo, algo totalmente impensável para mim há uns meses atrás, quando pensei em fazer o Ironman o meu objectivo era fazer o segmento de ciclismo a uma média de 27km/h.

A seguir a um banho rápido fomos ouvir o briefing da prova, mais uma vez impressionante a quantidade de triatletas, a quantidade de pessoas que ia fazer pela primeira vez o Ironman, a quantidade de nações representadas, a diversidade de pessoas, o show à volta do briefing, o detalhe, absolutamente impressionante. Da parte da tarde fomos colocar as bicicletas no parque de transição, até dava vergonha a minha bicicleta ao pé daqueles maquinões todos, o que me dava alento era pensar que mais vergonhoso seria quando eu na minha "amostra de bicicleta" passasse por alguns daqueles maquinões durante a prova. Além da bicicleta também fomos colocar os sacos no cabideiro para as transições. Nessa altura é que me apercebi da verdadeira confusão, era ainda pior do que pensava, os sacos ficam totalmente atafulhados uns com os outros, todos iguais, só identificáveis pelo nosso número, a distância entre os cabides não era superior a 2cm, se alguém mexesse no nosso saco e o trocasse de sítio nunca mais o encontrávamos. Apesar de inexperiente não sou parvo nenhum, então fiz um pequeno laço nas cordas dos meus sacos, coisa que ninguém tinha feito, pelo menos ali nas minhas redondezas, desta forma conseguia identificar rapidamente os meus sacos, nem que estivesse a 3 metros de distância deles.


Era agora hora de descansar, dormir, o dia seguinte era o grande dia...


quinta-feira, setembro 22, 2016

Swim Challenge Cascais

Este seria o meu derradeiro teste antes do Ironman, o swim challenge de Cascais. Fundamentalmente queria saber em condições idênticas às do Ironman, distânia de 3,8kms feita com fato isotérmica qual seria o meu tempo, para saber em que bloco de partida irei entrar no Ironman. Após o swim challenge da Aldeia do Mato que me correu super mal, queria mesmo ver como estava a minha forma dentro de água, eu acreditava que acabaria abaixo de 1h15m (para entrar no bloco sub 1h15m no Ironman), mas dado ao meu fraco desempenho na Aldeia do Mato tinha algumas dúvidas.


O percurso consistia em duas voltas em que a transição entre as voltas era feita num pequeno percurso em terra. A primeira volta correu-me bastante bem, consegui quase sempre ir num grupo o que me possibilitava preocupar menos com a navegação e mais com a técnica, ao mesmo tempo que me protegia atrás de outros nadadores. Na transição ia com cerca de 36 minutos, o que daria um tempo final abaixo de 1h15m. 


Na transição desatei a correr e saí a frente do grupo onde ia. Fiquei sozinho e cometi um erro de navegação que me custou uns segundos, em vez de apontar à 3ª bóia, apontei à 4ª, estavam ambas à minha frente mas a 4ª mais à esquerda. Estranhei não ver ninguém, até que me apercebi que todos os nadadores estavam do meu lado direito a uns 20 metros de mim. Perdi algum tempo a voltar a trajectória e quando voltei ali estava eu outra vez no mesmo grupo que tinha deixado para trás, esforço desperdiçado. Até ao fim mantive-me dentro do grupo, o ritmo não era mau, e sabia que no final era muito provavelmente o mais rápido do grupo.


Assim foi, inclusivamente ainda apanhámos alguns nadadores sozinhos, e se à saída da água ainda tinha outro nadador comigo apesar da minha aceleração final, na corrida até à meta não deixei mais ninguém se aproximar. O resultado final foi 1h13m45s (o GPS aparvalhou no final e não marcou o percurso todo), foi bom e dentro do que queria fazer, venha daí o Ironman.

quarta-feira, setembro 14, 2016

Granfondo Aldeias de Xisto

Depois de no dia anterior a prova de 5km a nadar me ter corrido muito mal, esperava nesta prova de bicicleta conseguir ter boas sensações porque é onde anda a incidir o meu treino. E a coisa não podia começar pior, mal acordei apercebi-me que me tinha esquecido do capacete, essencial para poder participar na prova. Ligo para a organização mas não me conseguiam arranjar capacete, disseram-me para tentar comprar na feira da prova. Pediram-me 150€ por um capacete, porque era o topo de gama, que se lixe, não ia dar assim 150€ por um capacete à toa, sem sequer ter analisado as minhas opções. Pedi a diversos grupos/clubes se tinham um capacete extra que me pudessem emprestar e nada. As minhas únicas opções seriam, ou não treinar e ficar horas à espera dos meus colegas, ou fazer o percurso à mesma sabendo que estava desclassificado à partida. A opção foi fazer o treino à mesma, era esse o meu objectivo, não estava ali para ganhar ou fazer uma classificação de TOP na prova, por isso lá fui eu sem capacete, arrancando mesmo no fim do pelotão.


Os primeiros quilómetros foram fáceis sem grandes subidas, ainda com muita energia, lá fui andando na conversa com o Manso num ambiente descontraído, só interrompido por alguém a perguntar onde tinha o meu capacete. No início da primeira subida passei pelo meu colega Gonçalo Sousa, que também irá comigo ao Ironman, continuei com o Manso subida acima a um ritmo constante mas confortável.

No final da subida, no primeiro posto de abastecimento, um elemento da organização pediu-me para remover o dorsal da bicicleta, visto que oficialmente não podia estar na prova por estar sem capacete. Para mim não tinha qualquer importância, só queria que me continuassem a dar abastecimento ao longo da prova, pois não tinha comida e líquidos suficientes para os 166kms. Seguimos novamente juntos, até à descida vertiginosa da barragem, foi um ondulado constante nunca havendo terreno plano. Na descida para a barragem o Manso ficou um pouco para trás e durante a subida não era possível esperar por ele. A subida foi a pior da prova, até chegar aos tambores (senhores a tocar tambores), duríssima, com um pequeno troço menos inclinado pelo meio só para respirar, mas tirando isso a minha desmultiplicação tornou esta subida uma tortura para mim. Depois dos tambores já sabia que a subida continuava porque os meus colegas de clube me tinham dito, por isso já estava psicologicamente preparado, e apesar de difícil (zona vermelha da imagem seguinte), já não sentia  a necessidade de ter uma desmultiplicação mais leve.


Entretanto deixei de ver o Manso, aproveitei para parar e aliviar a bexiga. Como o Manso não aparecia e só faltavam 10kms para o próximo ponto de abastecimento decidi seguir e esperar por ele enquanto estivesse a comer. À saída do posto de abastecimento, aos 88kms na Pampilhosa da Serra, apanhamos um raio de um empedrado mais íngreme, que não contava mesmo nada com aquilo, o Manso descolou de mim e toda a gente à minha volta a desmontar e a subir a pé. Consegui a muito custo não desmontar e ao olhar para trás deixei de ver o Manso. Nessa altura como já estávamos a mais de metade da prova, decidi seguir ao meu ritmo. Fui passando pequenos grupos e ciclistas sozinhos. Por volta dos 100-110kms foi quando me senti pior, estive sozinho muito tempo, não via ninguém para trás e para a frente, não havia pontos de referência. Ao chegar ao posto de abastecimento na Picha (sim é o nome do local) 2 elementos da organização dizem-me - "Há água fresquinha a 200 metros." - esqueceram-se foi de dizer que era num empedrado digno de BTT e a subir bastante, mais uma dorzinha para chegar ao oásis.


A seguir a abastecer continuei sozinho a ultrapassar alguns ciclistas, já com muito calor, mas já me encontrava numa fase que me tinha voltado a sentir melhor fisicamente. Chego ao último ponto de abastecimento, antes da última subida e parei um pouco para comer devidamente para atacar a subida. Esta última subida apesar de longa tinha inclinações mais suaves, idêntica à primeira subida da prova, e é um tipo de subida à qual me adapto muito melhor. Nesta subida cheguei a andar diversas vezes em pedaleira grande, senti-me muito bem mesmo, e ao longo dos 13kms ultrapassei certamente mais de 20 ciclistas. Acabei a prova no topo com 6h35m19s, o que me daria o 243º lugar entre 400 ciclistas, nada mau para mim, que há uns anos atrás andava a fazer provas de poucas dezenas de quilómetros a tentar não ficar nos últimos 10% dos participantes.


Faltava regressar ao ponto inicial da prova, 22kms sempre a descer, acho que nunca tinha descido tantos quilómetros seguidos, ainda deu pelo caminho para ultrapassar um carro. Devo dizer que a meio da descida já estava farto, doía-me os braços, os pulsos e manter a concentração durante tanto tempo é desgastante. Fiz os 166kms em 7h06m42s, dado à imensa dificuldade do percurso e ao facto de me sentir bem durante quase toda a prova e no final, creio que estou preparado para o Ironman, onde o objectivo é fazer os 180kms em menos de 7 horas. Está quase...

segunda-feira, setembro 12, 2016

Swim Challenge Aldeia do Mato

Após uma série de anos sem ir ao Swim Challenge da Aldeia do Mato, este ano como preparação para o Ironman esta era uma prova que era interessante fazer. Já há bastante tempo que não nadava 5kms sem fato isotérmico, só com fato de banho, mas como já não era a primeira vez a fazer a distância não me preocupei grandemente.

Após os primeiros 500 metros percebi logo que não estava com um bom ritmo, tenho treinado pouco a natação, para poder treinar mais ciclismo, e não estava a conseguir seguir com nenhum grupo e rapidamente me vi sozinho sem nenhuma referência. Ao final da primeira volta nem estava assim tão mal para meu espanto, estava com cerca de 48 minutos, o que me dava um tempo final muito parecido com o tempo que tinha feito esta prova pela última vez.

Mas a 2ª volta foi dolorosa, sempre a nadar sozinho e pior que isso, comecei a sentir dores no cotovelo esquerdo, com o tendão a ressaltar no osso e a doer-me bastante. A única solução que tive foi encurtar a braçada de modo a não forçar tanto o cotovelo. A partir do último retorno então fui-me mesmo a arrastar, receei mesmo já ser o último, visto ser uma prova com pouca gente mas de bastante qualidade na sua maioria. Não acabei em último mas perto disso, só acabaram 5 nadadores atrás de mim, mas fui o 2º do meu escalão (a história do copo meio cheio e meio vazio), com o tempo final de 1h46m06s. Foi um péssimo tempo, mas não me posso espantar pelo meu treino deficiente na natação, contudo sempre disse se perder 10 minutos na natação e ganhar 1 hora na bicicleta no Ironman para mim foi uma boa opção. Próximo fim de semana tenho a última prova antes do Ironman, 3.8km com fato isotérmico, e aí já terei uma ideia bastante próxima do que irei fazer no Ironman.

sexta-feira, setembro 02, 2016

Falta 1 mês

Parece que passou a correr, já só falta um mês para o Ironman. Tem sido duro manter um plano de treino consistente, com um recém nascido, com o trabalho, com restrições familiares, mas mesmo assim sinto que estou preparado, que vou conseguir superar este grande desafio. Mentalmente é muito desgastante todos os dias pensar que tenho de treinar, ou que esta semana ainda não treinei o número de horas suficiente, ou que tenho de ter cuidado para não me lesionar, que qualquer dorzinha fora do comum, qualquer desconforto dispara um alerta a dizer que tenho de estar no melhor das minhas capacidades físicas no dia 2 de Outubro. Falta so mais 1 mês de sacrifícios para depois conseguir desfrutar da prova, ainda não tenho a meta à vista mas a linha de partida está mesmo ao virar da esquina.

segunda-feira, julho 25, 2016

Triatlo de Setúbal

Este foi o último teste numa prova de triatlo antes do Ironman, distância olímpica, nem é para ir a fundo nem é para gerir esforço, é preciso não perder intensidade e ao mesmo tempo não gastar demais para não morrer no final. 

Além de ser uma preparação para o Ironman também ia tentar fazer meu melhor tempo na distância olímpica, bem sei que estive demasiado tempo a treinar pouco devido a ter sido pai há 1 mês, mas não ia deixar de tentar porque o treino antes dessa altura estava bom e os resultados estavam a aparecer. Pela primeira vez ia fazer o segmento de natação sem fato isotérmico, a água estava a 23ºC (não me parecia mesmo nada) por isso fato não era permitido. Para mim nadar sem fato é terrível, sou friorento e custa-me imenso aguentar o frio da água.

Antes de começar a prova fui nadar um bocado e percebi logo a forte corrente que estava, além de não ter fato ia também ser difícil por causa da corrente. Consegui afastar-me da confusão e traçar uma trajectória, que tendo em conta a corrente, me levou direito à primeira bóia. A segunda parte do segmento foi o mais duro, sempre a nadar contra a corrente avançava-se muito devagar, tentei sempre me proteger atrás de outros nadadores de modo a desgastar-me o mínimo possível. No fim acabei por fazer quase 1900m ao contrário dos 1500m que deveria ter o segmento. Aliado à distância maior e a não ter utilizado fato isotérmico, acabei por fazer cerca de 36 minutos neste segmento onde no mínimo deveria ter feito menos 10 minutos em situações normais, isto desde logo deitava por terra as minhas aspirações de fazer um tempo final inferior a 2h30m.


A transição julgava que ia ser rápida porque não tinha fato para despir, mas não correu bem, tive dificuldades em calçar as meias e perdi alguns segundos a mais do que gostava. Saí para o segmento de ciclismo e logo procurei formar um grupo para ser mais fácil fazer este segmento. Infelizmente o grupo era somente um trio o que fez com que me tivesse de desgastar durante muito tempo. Durante a primeira volta fomos apanhados pelo grupo das primeiras mulheres que tinham saído 15 minutos antes. Muito elas refilam com tudo e com todos, gritam, berram, resmungam, tanta testosterona que ali estava acumulada. Nisto vem um árbitro mostrar-nos, aos 3 homens um cartão azul de aviso, em que ou íamos embora ou tínhamos de ficar para trás que não podíamos rodar com elas. A nossa reacção pode-se dizer que não foi nada amistosa, dissemos que ele era um trabalhador circense, que fosse para uns determinados sítios, alguns comentários sobre a mãe dele, e ainda falámos da extraordinária capacidade que ele tinha de avaliação as situações. Ora se elas tinham vindo detrás e depois tinham ficado ao pé de nós o problema não era nosso, se elas vinham mais rápido é que nos tinham de deixar para trás, não éramos nós que nos tínhamos de ir embora ou diminuir o ritmo a que íamos.

Esta palhaçada durou 2 voltas em que nós acelerávamos para ficar uns 10 metros à frente delas, depois elas passavam novamente e ficavam ao pé de nós. Nesta altura acho que nós os três gastávamos mais energia a refilar com o árbitro que a pedalar, pois nós estávamos ali só para fazer o melhor e elas é que estavam ali a lutar para ganhar a prova delas, por isso para nós era irrelevante ganhar alguns segundos ou mesmo minutos por estarmos a circular num grupo maior. Passadas 2 voltas de esticões constantes não consegui seguir com os outros 2, e acabei por ficar ali naquele grupo, que não era grupo, pois eu não podia estar junto das raparigas. Foi uma volta sempre com o peito ao vento, dum lado da faixa ia eu do outro lado da faixa iam as raparigas a revezarem-se a passar pela frente. Quando faltava uma volta e meia para o final chegaram 3 homens aquele grupo, o árbitro de imediato começou a embirrar com os 3, nessa altura um deles acelera para deixar o grupo e desta vez consegui ir na roda. Formámos um pequeno grupo de 4 elementos que não voltou a ser apanhado pelas raparigas, mas que também não íamos assim tão rápido. No final acabei os 40kms com uma média de 34km/h não foi brilhante mas também não foi mau de todo tendo em conta que fui muito tempo sozinho ou em grupos pequenos, não foi bom para o resultado da prova mas foi um bom treino para o Ironman.


Não consegui tirar os pés a tempo antes de entrar no parque de transição, o empedrado e o cansaço dificultaram-me a tarefa e acabei por correr com os sapatos calçados mas já desapertados no parque de transição. Contudo a transição até foi boa. No último retorno da bicicleta contei o tempo, e ia mais ou menos 6m30s atrás do João Cruz e do João Santos da minha equipa, o meu objectivo na corrida era agora conseguir chegar ao pé deles. Tendo em consideração que passava pouco das 14h, num dia de Verão onde estava um calor insuportável, (quem se terá lembrado que era boa ideia uma prova a estas horas) os primeiros quilómetros feitos a um ritmo de 4:15-4:25/km não estava mesmo nada mal. 


Claramente estava a aproximar-me dos meus colegas de equipa até que por volta os 6,5kms os consegui apanhar. Nessa altura já estava bastante cansado, apesar de ter seguido no meu ritmo notava-se que já não estava assim tão mais rápido que eles. A dificuldade que tive a calçar as meias também fez com que não as puxasse devidamente, a do pé direito estava enrugada e a começar a incomodar-me na planta do pé, não foi um final muito agradável. Acabei por fazer 47m20s no segmento de atletismo, dada a alta temperatura e o desgaste acumulado não foi mau, apesar de estar longe dos meus melhores tempos. Acabei a prova com o tempo oficial de 2h37m55s, longe de 2h30m que era o que pretendia, mas percebo facilmente os motivos disto ter acontecido. Depois da prova não me senti muito bem, dores de cabeça e suores constantes, provavelmente devido ao elevado calor durante a prova, mas foi um bom teste rumo ao Ironman.