terça-feira, fevereiro 03, 2026

O que damos por adquirido

Hoje vinha de pôr a minha filha na creche e vi um miúdo, devia de ser mais ou menos da idade do meu filho ou mesmo mais novo, a caminhar no passeio, a chover torrencialmente e ele sem chapéu de chuva, só com um casaco e uma mochilona às costas. Lembrei-me que de manhã me tinha chateado com o meu filho por um capricho e teimosia dele, olhando para aquele miúdo, que claramente tem um percurso de vida mais duro que o meu filho, vejo que o meu filho não dá valor, assim como muitos de nós, aquilo que dá por adquirido. Ele não dá valor a eu acordar cedo para o ir pôr à escola de carro, para voltar a casa, ir pôr a irmã à creche e ainda começar a trabalhar antes das 9h. Simplesmente dá por adquirido que tem de ter essa facilidade do ir pôr à escola de carro, assim como dá como adquirido muitas facilidades que o ensino agora promove e acha que os professores o têm de ensinar e facilitar a ter boas notas em vez de se preocupar e esforçar por aprender, basicamente inverte o ônus da responsabilidade.

Até certo ponto aquele miúdo relembrou-me de onde venho, na primária ia a pé para a escola e a partir daí até terminar a universidade andei sempre de transportes públicos, fizesse chuva ou fizesse sol. E a minha mãe estava em casa e tinha muito mais disponibilidade que nós agora temos para os filhos pois não trabalhava, e mesmo assim eu andava sempre de transportes, pois eram gratuitos e de carro gastava-se dinheiro em gasolina. Mas essa dureza, ou inexistência de facilitismos, ajuda a moldar a personalidade e creio que dificilmente, o meu filho terá o mesmo capacidade que eu tinha, pois não passou pelas dificuldades, não será tão capaz, tão desenrascado, mas isso é culpa nossa como pais, que até certo ponto não deixamos que eles fortaleçam as suas asas para voarem por eles próprios.

No outro dia o Francisco falou-me de um menino lá da escola, que tinha permissão para sair sozinho da escola e que depois ia para casa de autocarro, e ele falou daquele menino como se ele fosse quase um alien, quando na minha altura isso era o normal e os aliens eram os poucos cujos pais os iam pôr e buscar à escola de carro. Muita coisa mudou em 35-40 anos e como tudo há vantagens e desvantagens, não sei é se neste caso as vantagens serão menores que as desvantagens, acho que isso só se saberá quando esta geração chegar à idade adulta.

quinta-feira, janeiro 29, 2026

20 anos de blog

Este ano é muito especial, pois assinalou-se os 20 anos desde que criei este blog no dia 27 de Janeiro. E como é um aniversário especial decidi fazer uma retrospectiva pelo que de mais importante se passou ao longo destes anos, claro que houveram anos mais interessantes que outros, por isso vou tentar fazer um pequeno resumo dos eventos mais importantes na minha vida nos últimos 20 anos, ora aqui vamos nós:

2006

2007

2008

  • Compra do meu apartamento de Cascais
  • Viagem a Frankfurt
2009

2011
2012
2014
2015
2016
2017
2018
2019
  • Viagem a Atenas para a maratona
2020
2021
2022
2023
2024
2025

quinta-feira, janeiro 15, 2026

Estafeta dos Reis

Já há muitos anos que queria fazer esta estafeta, mas todos os anos esbarrei no problema principal, conseguir arranjar mais 2 corredores para fazermos equipa. E este ano a história repetiu-se, desafiei 2 colegas de trabalho, mas só um conseguia ir. Depois desafiei o grupo com que fui fazer a Maratona de Atenas e eles já tinham uma equipa, e os restantes não conseguiam ir correr. Por isso era mais um ano que não conseguia ir participar na estafeta. Até que ao final da tarde, do dia antes da estafeta, liga-me o Sebastião a dizer que tinham tido uma desistência numa equipa se eu queria ir substituir esse corredor. E assim sem qualquer preparação previa lá fui no dia seguinte para a prova.

Quando lá cheguei falei com o Sebastião, a pensar que quem tinha falhado tinha sido alguém da equipa dele, quando ele me diz que era de outra equipa da qual eu não conhecia nenhum dos corredores. E é quando ele me diz que um dos corredores, o Romário, fazia os 10kms em menos de 35 minutos e o outro, o André, em menos de 33 minutos, mas estava muito constipado. "Ah bom, está constipado, portanto em vez de estar completamente lixado, estou só muito lixado." - foi o que me veio à cabeça, e a minha cara deve ter sido daquele emoji dos olhos esbugalhados 😧😬😶. Já estava a ver o filme, não queria ser um peso morto para a equipa, o meu melhor tempo aos 10kms foi 39 minutos, nos meus tempos áureos.

O primeiro corredor fazia 5kms, o segundo 2,5kms, o terceiro 2,5km e finalmente todos juntos fazíamos mais 2,5kms. A decisão óbvia é o mais forte faz o primeiro percurso, o mais fraco o segundo percurso, e o intermédio o último pois acaba por fazer 5kms seguidos. Por isso a ordem seria Romário, que estava em forma, aqui o desgraçado e depois o André que estava constipado.

Lá começou a corrida com 190 equipas, e o Romário dispara no pelotão da frente, até que a coisa começa a ficar organizada, com um atleta destacado na frente, um duo a seguir e depois mais um grupo de 4 atletas onde estava o Romário. O Romário iria fazer duas voltas ao percurso, então quando ele estava a meio da segunda volta dirijo-me para a partida e começo a ver os primeiros a chegar até que o speaker diz que o número da minha equipa está a aproximar-se. Não tenho a certeza, mas creio que o Romário entrega-me a transição em 6 lugar, olha a responsabilidade, estava ali no grupo da frente.

Começo a correr e sem poupar nada pois a corrida era curta e tinha uma equipa a depender de mim. Quando até estava a encurtar a distância para o atleta da frente, estava a correr a 3m15s/km, passa outro corredor por mim que me fez sentir como se eu estivesse parado, nem reação para o seguir, e logo a seguir mais um ao mesmo ritmo. O que era aquilo? Eu sou amador mas eles pareciam atletas olímpicos. 

Por volta de 1km de prova sou ultrapassado por outro atleta, este ainda consegui ir um pouco atrás dele, o que me ajudou a encurtar ainda mais o espaço para aquele corredor inicial. Depois da subida mais íngreme do percurso não consegui seguir mais com ele, por isso tive de conseguir gerir o ritmo por mim próprio, não podia abrandar mas depois ainda tinha de fazer outra volta, por isso tinha de ficar com algum 'combustível no tanque'. Mesmo assim fiquei contente com o meu tempo pessoal 9m57s, foi um belo ritmo para mim, mas claramente não era por mim que estávamos naquela boa posição, o Romário tinha feito 8m54s na primeira volta e 9m36s na segunda volta.

Aproveito aqueles minutos que me pareceram ser muito breves para recuperar o folgo, sabia que o André apesar de muito constipado era alguém com 33 minutos aos 10kms, por isso não iria demorar muito tempo. O André chegou na 7ª posição com o tempo de 9m51s, era altura de irmos todos juntos. Começamos os 3 a correr e passado 1 minuto eu já estava desconfortável atrás deles, como estávamos com outra equipa em vista e estávamos a aproximar-nos eles estavam a apertar o ritmo. Tive de lhes pedir para baixar um pouco o ritmo que eu não estava a aguentar, e um dos elementos da equipa da frente parecia estar a fraquejar, acelerávamos depois na subida que para mim era onde me sentia mais confortável.

Eles lá reduziram, pouco, e eu quase a morrer atrás deles, se me metessem a mão na boca eu explodia, se apanhasse uma pedra mais saliente eu ia tropeçar. E eles a falarem à minha frente como se estivessem a passear. A equipa da frente distanciou-se um pouco e mesmo com a subida não encurtámos o espaço, totalmente culpa minha, tenho a certeza que se fossem só eles os dois que os conseguiam ir apanhar.

Acabámos na 7ª posição da geral, com um tempo na última volta de 10m06s e um total de 47m24s, mantendo a mesma posição com que começámos a última volta. O melhor veio depois, soubemos que tínhamos ganho o nosso escalão, o escalão dos velhos, todas as equipas à nossa frente eram miúdos. Este pódio teve um sabor agridoce, obviamente que adorei voltar a subir ao pódio, mas sendo honesto comigo próprio este pódio deveu-se aos meus colegas de equipa, se todos tivessem o meu nível era provável que conseguíssemos o 3º lugar do pódio, mas nunca o primeiro. Obrigado Romário e André.



quarta-feira, janeiro 14, 2026

São Silvestre Amadora

Mais um final de ano a correr a São Silvestre da Amadora, a bela tradição mantem-se para meu gosto. Agora além da companhia do Pre e da Cláudia, a minha mulher passou a ser companhia habitual, mesmo no ano que estava grávida de 7 meses ela juntou-se à minha tradição de final de ano. 


Indo para a corrida este ano acreditava que conseguiria fazer algo entre 42-43min, apesar de não estar no meu topo, já me começo a aproximar e a conseguir estar mais consistente. Este ano juntei-me com o Sebastião na partida, ele está a correr muito bem e por isso queria aproveitar a 'boleia' dele na prova. Sabia que enquanto houvessem subidas eu estava bem, porque é onde me sinto melhor, por isso o meu objetivo era conseguir ir com ele até ao final da subida dos comandos.

A prova começa e eu deixo o Sebastião ir à frente, este ano estava mais confusão do que o habitual, fui seguindo o ritmo dele e por volta dos 700 metros de prova passei para a frente, era a subir e era melhor ser eu a impor o ritmo. Até ao final da subida aos 2,3kms até me distanciei sem querer, mas o Sebastião rapidamente se juntou a mim na descida e trouxe com ele o João Navarro. Estava na altura de sofre um pouco para o conseguir acompanhar na descida. A custo lá fui junto deles e no falso plano que vai dar à passagem por cima da linha do comboio ainda voltei a puxar. O ritmo estava bom apesar de sentir que estava a forçar um pouco acima do que devia, no entanto provas de 10kms são mesmo para sofrer, por isso era continuar ao ritmo do Sebastião.

Na curta mas íngreme descida depois da linha do comboio o Sebastião afastou-se uns metros mas ainda o consegui ir buscar no plano. Aos 5kms de prova ainda estávamos juntos, com um tempo de 21m18s, mas nos 500 metros seguintes naquela ligeira descida perdi uns 20 metros para ele. Na subida dos comandos voltei a conseguir apanhá-lo e passei-o. Logo a seguir ao final da subida ele encostou a mim e deu-me umas palavras de força, no entanto eu estava no meu limite, e disse-lhe para seguir que dali até ao final ainda ia perder 1 minuto para ele.

Serrar os dentes e sofrer até ao final, tentei ir num grupo na fase em que começou a longa descida, que nos leva quase até à meta e consegui quase até ao final da descida ir no grupo de modo a conseguir um ritmo mais elevado. Cortei a meta com 42m24s, com uma segunda parte de prova mais rápida que a primeira, o que é normal pois é menos dura. Perdi para o Sebastião o minuto que lhe tinha dito, mas consegui fazer um tempo dentro daquilo que pretendia, por isso tenho de lhe agradecer a ajuda que me deu.